sexta-feira, 24 de abril de 2015


Dinis Américo Lufiande
Universidade Pedagógica de Moçambique




A ESCOLA QUE MATARAM

São situações que vale a pena perder o tempo gritando e reportando para o meu diário que nunca é visto pelo grupo alvo que quero que saiba e muito menos pela dita geração de viragem que faço parte, onde uns e os mais poucos perdem o rico tempo pensando em mudar o mundo, sem se interessar com o que mais incomoda na sua própria casa, ou melhor nem se importam com o que está próximo deles mas sim com o que é impossível, e os muitos se tornam ainda mais colonizados pelas redes sociais, o três (3) cem e o swuega.

Vale a pena desabafar no teclado, mesmo sabendo que o melhor seria com a caneta e o papel, porque ainda me conservaria dos futuros problemas da vista, preguiça e ate mesmo da perca da boa caligrafia que foi o resultado de anos de muito esforço, meu e dos que quiseram que escrevesse bem, mas como faço parte desta geração onde a tecnologia no geral e a de informação e comunicação especificamente domina as tais tradicionais, sê que escrever no papel com a caneta é ultrapassado, então ainda não quero ser ultrapassado.

Na verdade aconteceu numa escola da minha pátria amada, onde outrora, ou melhor num passado muito próximo as regras do jogo estavam mesmo acima de qualquer espécie de individuo (repista, swega, dzukuteiro ou pandzeiro) ou melhor resumindo, seja la o que fosse, mas aqui não havia espaço, se era para regular, não tinha como dizer minha calca não tem botão, minha camisa não tem gola e pendurar a gravata na pescoço era uma saída; quando o indisciplinado exibisse os seus dotes, imediatamente era posto fora da sala de aulas e só podia voltar a sentir o cheiro da tinta da escola recém-construída depois de ir consigo o encarregado de educação; o professor não podia pisar o recinto escolar sem bata, porque era como se se sentisse nu em público ou melhor, perante seus pais e filhos e mais outros exemplos que colocavam a escola como modelo na região onde ocupa nessa pátria amada, pois em todo canto da região, ate mesmo a pessoa que mandou construir queria que o seu filho estivesse ali a estudar, quer dizer, na altura a direcção era terrivelmente competente, exemplar, não mostrava as suas fragilidades sê que tinha, pois do jeito que era forte, ninguém sonharia em procurara-las, e isso reflectia até as camadas subsequentes, o professor era o primeiro a chegar antes da hora da sua entrada, seja no período de intervalo, borla ou ausência do professor, o aluno estava sempre na sala, ou melhor nenhum aluno ousava circular por ai de qualquer maneira como o chefe disse. E eu estava la a viver esse regime, desafiei, transformei dificuldades em desafios, fiz a minha parte e sai com sucessos, deixando-lhes a escola ainda com um regime forte e firme.

Desapareci de la, porque outras escolas me tinham aberto as portas para por la eu passar e colher experiências, graças a isso agora ate paro e olho para mim mesmo e até me admiro.
Mas por ironia do destino, alguns anos depois (por ai 4, 5 ou mesmo 6), la voltei, dessa vez não como aluno, mas sim como professor. Faz favor no que vivi. É lastimável. Não. Não dá mesmo. Estiva-se num centro de convívio, onde todos são chefes, onde ninguém queixa a ninguém. Vivi uma situação em que perante a avaliação provincial, o aluno discutiu com o professor por o primeiro não ter regulado e estava na sala de aulas e depois de muita bate boca o professor mandou embora o aluno, cinco (5) minutos depois o aluno no colo da directora pedagógica, esmagaram o professor em frente da turma e por forca superior o aluno entrou na sala e continuou fazendo a avaliação como se não tivesse acontecido nada, como se o aluno tivesse razão, isso me furou o coração, o professor que estava a vigiar a turma, malariou-se logo de seguida e abandonou o seu posto de trabalho. O barulhou não terminou por aqui, soou ate na sala dos professores. Aqui muita coisa saiu das bocas dos que muita coisa boa passam quando eu era seu aluno e o pior disseram, como por exemplo:

- Isto está pior pah, em todos os intervalos os professores tinham direito de tomar um café, mas agora nem se sente o cheiro disso;
- Antes, na sala dos professores assim como em todos os gabinetes, até mesmo na secretaria haviam congeladores e qualquer um seja docente ou não podia beber agua gelada, mas agora esta coisa só conta com uma geleira que esta no gabinete do chefe;
- Agora o aluno chama de TU a qualquer um e pior ao contínuo e já não se fala do guarda e quando alguém quiser impor a ordem, a mãe pedagógica e os padrinhos e advogados da direcção, vão colocar o seu nome na lista negra;
- Agora é um local onde o chefe entra na sala bêbado, dirige-se aos alunos e lança piada enquanto a aula da tal disciplina esta correr;
- O aluno entra e sai quando bem entender, seja organizado ou não sem pedir permissão;
- Os encarregados de educação já nem pisam na minha escola para fazer o acompanhamento do filho, porque já tem padrinhos e filhos que cuidam dos netos;
- É aqui onde o chefe não é conhecido pelos alunos, só foi visto na reunião de abertura do ano lectivo.
- Um dos professores até o final do trimestre só tinha dado duas (2) aulas, mas já se fez a avaliação provincial da disciplina (kkkkkkk);

Então um tal fulano bem organizado, bata limpa sentado na sala dos professores, com um jornal na mão que trosse de casa, depois de ter ouvido todas estas bobagens, concluiu que a sua escola foi morta.

(kkkkkkkk) o mais engraçado está a acontecer em paralelo. O governo reuniu com tudo o que é massa pensante da pátria amada para discutir melhorias da qualidade de ensino e tal como rege o manifesto eleitoral do chefe, a qualidade do ensino assim como da vida do professor ira mudar, dito e já esta acontecer, ora vejamos:
- Primeiro, aumentaram 5% para o chefe, também para o professor superior, 10% para o professor básico e médio, só espero que esta medida aplicada aos improdutivos não acelere o enterro da escola, já que o senhor ministro (chefe) disse que em nenhuma parte do mundo o professor surgiu para ser rico, então toma ai...
- Próximo ano temos pré classe…
Mas na verdade depois de ter auscultado todas estas situações, saí daquela sala confuso, malariado e desnorteado. É que fiquei fazendo uma aritmética muito simples, olha que se em um ano e meio (1/2) a escola chegou a este nível, o que será daqui a pouco?

Faz favor, que alguém apareça e faça alguma coisa, antes que se realize o enterro. E ainda por cima… 

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